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Arminda Aberastury: releitura do
kleinianismo (1910 – 1972)
Na
Argentina, Arminda Aberastury é reconhecida como peça importante
para a Psicanálise infantil. Com Garma e Enrique Pichon Rivière,
ambos psicanalistas, Aberastury desenvolveu o que chamou de “Nossa
Técnica de Psicanálise de Crianças” (1977).
Nesta
época, era muito grande o interesse pela Psicanálise de crianças, o
que levou Aberastury a formar um grande grupo que serviu para o
desenvolvimento da Psicanálise infantil na Argentina, abrangendo
toda América Latina.
Já em 1946, estudou a obra
de Melanie Klein, mantendo correspondência científica e fazendo
supervisão com a autora. Chegou a traduzir o livro de M. Klein
“Psicanálises de Crianças” em 1948. Assim como Klein, construiu toda
sua teoria através do material clínico, usando sua experiência com
crianças para desenvolver a investigação e a metodologia
psicanalítica.
Sua adesão ao pensamento
kleiniano não impediu uma atitude integradora com a obra de Anna
Freud; apesar de nutrir-se da obra de Klein por muito tempo, usou
de sua própria experiência para fazer uma série de modificações.
Diferenciando-se de Klein,
apresentou a preocupação em examinar a família do paciente.
Aberastury utilizou uma forma especial de conduzir as entrevistas
com os pais, possibilitando a redução da análise com crianças a um
relacionamento bipessoal, como na análise de adultos.
Nessa primeira entrevista
inicial com os pais, ela fazia várias perguntas como: o motivo da
consulta; história da criança; como transcorria um dia de sua vida
atual, um domingo ou feriado e o dia do aniversário, como era a
relação dos pais entre si, com os filhos e com o meio familiar
imediato. Para Aberastury o importante era a postura que devia ser
mantida pelo analista no final da primeira entrevista com os pais e
na sua finalidade: ”Estamos ali para compreender e melhorar a
situação e não para censurá-los e agravá-la aumentando a sua culpa”
(1982).
Segundo Arminda, a
primeira hora de jogo tem uns significados decisivos, e mesmo a
criança muito pequena mostra, desde a primeira sessão a compreensão
sobre sua enfermidade e o desejo de curar-se. Ela concluíu que a
criança sabe estar enferma e que compreende e aceita o
tratamento.Tanto a transferência negativa como a positiva devem ser
interpretadas à criança desde a primeira sessão de brinquedo, bem
como no decorrer do tratamento, já que ambos os aspectos sempre
estão presentes.
Na Argentina, iniciou um
trabalho formando grupos de orientação de mães. Segundo ela, esses
grupos ofereciam “possibilidades otimistas para a profilaxia das
neuroses infantis” (1982. Embora na teoria Aberastury afirmasse que
a subjetividade era constituída apenas pelo mundo interno, na
prática procurou meios alternativos para considerar a influência do
mundo externo na subjetividade da criança, o que pôde observar ao
criar os grupos de orientação de mães.
3. 7.
Françoise Dolto: Enfoque Psicopedagógico e Educação Popular (1908 –
1988)
Françoise Dolto fazia parte do círculo de analistas de Jacques
Lacan, onde compartilhavam talento, carisma e um desgosto pelas
instituições de rigidez teórica. Seu talento para a escuta da
infância foi notado após defender sua tese de medicina em 1939 sobre
o tema das relações entre a Psicanálise e a Pediatria.
Dolto
utilizou um método com as crianças que consistia em abandonar a
técnica da brincadeira e da interpretação dos desenhos e praticar
uma escuta capaz de traduzir a linguagem infantil. Segundo Dolto, o
psicanalista devia usar as mesmas palavras das crianças e
comunicar-lhe os seus próprios pensamentos de forma real.
Alguns
temas específicos permearam toda sua obra. Sobre a linguagem e
comunicação ela dizia que o ser humano é um ser de “filiação
linguajeira”, um ser de linguagem pertencente a uma linhagem. O ser
humano é um ser de comunicação. A verdadeira relação única e
simbólica é a relação da fala. O lactente tem um desejo de
comunicação interpsíquica; a comunicação se origina no desejo. E o
objeto de desejo já existe desde as primeiras respirações do bebê.
A função
paterna para Dolto é fundadora do ser humano. Essa função se exerce
no seio de uma relação inter-humana, dentro de um espaço triangular;
ela diz, “há que haver uma triangulação, para que o sujeito fale de
si num eu referido a um ele”.
Sobre a
castração dizia ser humanizante. Para ela, sem a proibição do
incesto não seríamos seres da linguagem. Castrações são uma
provação, mas são também promessas e experiências implantadoras: no
mundo humano (castração umbilical), na presença sexual (castração
primária) e no mundo da cultura (proibição do incesto e castração
edípica). A renúncia a um objeto desejado, a um ato até então
permitido, possibilita uma simbolização adjacente, um circuito mais
elaborado de comunicação. A proibição autoriza e dá frutos.
Considerou o Édipo como um movimento pulsional, uma encruzilhada
estrutural. A criança não pode ocupar, sem prejuízo, o lugar do pai
ou de um objeto erótico na economia libidinal da mãe.
Dolto,
ao criar a “boneca flor” (1949), integrou à sua prática a
técnica dos jogos e, embora não tivesse conhecimento, na época dos
trabalhos de Melanie Klein, referia-se de maneira sutil a uma
clínica das relações de objeto. Através dessa “boneca flor”,
apareceria a representação particular que Dolto faria da imagem do
corpo, mais próxima da concepção lacaniana do estádio do espelho.
Publicou, também, depois de conturbados problemas que a
impossibilitaram de ensinar, o material gráfico e verbal, com suas
intervenções e associações, do tratamento de um adolescente de 14
anos, “O Caso Domonique”.
No ano
de 1979, Dolto criou em Paris à primeira “Casa Verde” (uma
casa intermediária entre o lar familiar e a creche ou a escola
maternal), para acolher crianças até a idade de três anos,
acompanhadas dos pais. Segundo Dolto, “trata-se de evitar os traumas
que marcam a entrada na pré-escola e de manter a segurança que a
criança adquiriu no nascimento”.
Através
da sua força intuitiva, havia uma maneira particular de Dolto
compreender os eventos psíquicos. Para ela as crianças devem ser
respeitadas em suas características expressivas e em sua fantasia,
cabendo aos psicanalistas reconhecê-las como sujeitos desejantes e
ver em seus sintomas mensagens a serem decifradas que exprimem a
singularidade de sua verdade e sua história.
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