|
Winnicott:
a influência do ambiente (1896 - 1971)
Winnicott é um dos poucos
psicanalistas que contribuíram com idéias originais. Chegou à
Psicanálise a partir da Pediatria. Sua obra, tanto a teórica como a
clínica, não se insere somente no campo pediátrico e psicanalítico.
Ele teve a preocupação de escrever para profissionais de Educação,
Assistência Social , Pediatria , Saúde Mental e também para os pais.
Seguiu os postulados de
Freud e de M. Klein, ainda que se tenha separado desta última a
partir de diferenças radicais na teoria. Todos os grandes conceitos
winnicottianos, construídos a partir de 1945, fazem parte de um
sistema de pensamento fundado na noção de relação: a mãe devotada
comum, a mãe suficientemente boa, o jogo da espátula ou do rabisco
ou ainda o falso e o verdadeiro self e o objeto transicional.
Winnicott deu primazia à
evolução psíquica do ser humano durante a fase de dependência
absoluta. Ele diz que nos primeiros seis meses de vida,
aproximadamente, o bebê acha-se num estado de dependência do meio
que é representado pela mãe ou por outra pessoa que exerça essa
função. O bebê não tem conhecimento de seu estado de dependência e
na sua mente ele e o meio são uma só coisa.
Winnicott tentou explicar
como o indivíduo cresce, a partir da dependência absoluta, para uma
forma de ser pessoal. Como de acordo com a sensação que tem o
indivíduo de si mesmo, se converte numa pessoa comum e
caracteristicamente única ao mesmo tempo, que o ambiente torna
possível e facilita, no melhor dos casos.
Isto só será possível se o
bebê tiver uma “mãe suficientemente boa” para oferecer-lhe
uma adaptação ativa no início. Desta forma, ela evita submeter o
bebê a situações além da sua capacidade de dar conta. Oferece
fragmentos tão simplificados do mundo quanto é capaz de assimilar.
Ao mesmo tempo, assegura condições ao bebê de ter, com o passar dos
dias, uma vivência de continuar a existir, uma linha de vida dando
condições ao bebê de sair desse estado rudimentar para um mais
integrado.
Winnicott postulou que a
mãe é quem apresenta o mundo à criança, mas em dose que a criança
possa tomar, de tal maneira que o traumático termina sendo aquilo
que a criança não pode compreender, ou não pode encontrar- lhe um
sentido.
Na segunda fase da vida ,
aproximadamente dos 6 meses aos 2 anos, a criança pequena entra na
fase de dependência relativa da mãe e dos substitutos
parentais. Chama-se dependência relativa porque a criança se
conscientiza de sua sujeição e, por conseguinte, tolera melhor as
falhas da mãe, assim tornando- se capaz de tirar proveito delas para
desenvolver- se.
Winnicott pronunciou uma
famosa frase em 1964, dizendo que o “bebê não existe”. Ele
queria dizer com isso que o bebê nunca existe por si só, mas sempre
essencialmente como parte de uma relação. Se a mãe estiver incapaz,
ausente ou, pelo contrário, demasiadamente intrusiva, a criança se
arrisca à depressão ou à conduta anti-social como o roubo ou a
mentira, que são maneiras de reencontrar, por compensação, uma “mãe
suficientemente boa”.
Um dos conceitos
fundamentais na obra de Winnicott é o conceito de Self. De
difícil definição, refere-se a algo essencial de uma pessoa e está
unido à sua vitalidade, a partir do emprego de suas tendências
inatas. A adaptação precoce ao meio foi um dos perigos percebidos
por Winnicott em relação ao self, que poderia vir a ser um passo
para a constituição de um Falso Self. É fato que todo
organismo tem que se adaptar ao meio, mas também deve saber
diferenciar-se como modo de aumentar suas probabilidades de
sobreviver. A mãe deve fornecer o necessário ao bebê e desta forma
satisfazer todas as suas necessidades. Assim, o bebê poderá
adaptar-se à realidade externa, apresentada gradualmente, devendo a
mãe colocar limites a essa disponibilidade total, reduzindo-a aos
poucos .
Outro conceito importante
na obra de Winnicott diz respeito aos objetos e fenômenos
transicionais. O autor denominou esta área de “espaço de
ilusão”, onde a criança desenvolve atividades que são denominadas
fenômenos transicionais; podem ou não incluir um objeto. Estas
atividades só se tornam possíveis se houver maternagem
suficientemente boa na fase crítica primitiva que possibilite uma
continuidade no tempo emocional externo. Assim, o espaço
transicional se constitui nesta área intermediária que propicia o
alívio da tensão de relacionar a realidade interna com a externa.
No decorrer desta fase a mãe suficientemente boa é aquela que
sobrevive aos ataques agressivos da criança, possibilitando que esta
faça um trabalho de reparação e restauração da mãe.
“ O melhor que uma mulher real pode
fazer pelo filho é ser , no começo,suficientemente boa em termos
sensíveis, de tal modo que, desde o início a criança possa ter a
ilusão de que essa mãe suficientemente boa é o seio bom”. (Winnicott,1990)
Para que a criança possa
penetrar no mundo e começar a tomar distância da mãe, precisa ter
algo que lhe permita neutralizar o efeito paralisante e depressivo
que significam as separações da mãe. O objeto transicional
cumpre a função de controlar as ansiedades que lhe produz a
separação da mãe. Neste espaço, a contribuição da criança e da mãe
se torna possível através de um objeto ao qual se afeiçoa e que lhe
serve de companhia ao ir dormir ou quando se sente ameaçada de
perda; significa tanto a mãe que se ausenta quanto aquilo que dela
permanece.
Assim, é esta condição de
abertura, da possibilidade de contribuir com seu gesto e aceitar e
acolher o gesto do outro, que se vai constituir o espaço do brincar.
A esta condição Winnicott chama de um espaço potencial e é na sua
constituição que se torna o brincar possível. Para Winnicott, o
brincar é que é a terapia fundamental. Se a criança não tem condição
de brincar, temos de capacitá-la para isso.
Entre as inovações técnicas de Winnicott figura a
técnica do Jogo do Rabisco.
O procedimento
consistia em propor à criança uma brincadeira: começar a traçar um
rabisco em um papel para que esta o completasse como quisesse, para
em seguida inverter o processo. Esta técnica era usada para
estabelecimento da comunicação emocional não-verbal com a criança. O
prioritário é o brincar e desempenhar o papel que a criança
necessita num dado momento tão crucial quanto da interpretação de
suas angústias, conflitos e processos.
Quanto à agressividade, o
autor em 1950, afirmou que “a agressividade é quase sinônimo de
atividade. A agressão faz parte da expressão primitiva do amor”.
Portanto, a agressividade é também considerada um produto da relação
do indivíduo com o mundo externo.
Não se pode deixar de
pontuar que a preocupação de Winnicott não era a inovação de
técnicas e conceitos psicanalíticos, e sim a formulação e discussão
de idéias que se originaram no seu trabalho clínico durante a sua
experiência profissional. É inegável que, em seus escritos, a sua
grande preocupação era com a realização integral do ser humano, que
não pode ser afastada do ambiente de que o indivíduo faz parte. Para
Winnicott a subjetividade é constituída não só pelo mundo interno,
mas também pelo ambiente. Assim, oferecia aos seus analisandos um
“ambiente especial”.
|