Espaço Terceira Idade
Lendo sobre a
velhice: resenha. Revista
da UFG, Vol. 5, No. 2, dez 2003 on line (www.proec.ufg.br)
Vera Maria
Tietzmann Silva1
O mundo dos velhos, de todos os velhos, é,
de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória.
Norberto Bobbio
Da ampla variedade de leituras que
tratam do processo de envelhecimento, ou da condição da velhice (às
vezes sob a capa eufemística da designação “terceira idade”),
selecionamos três, todas elas disponíveis no mercado livreiro: O
tempo da memória: De senectute e outros escritos autobiográficos,
do pensador italiano Norberto Bobbio; Memória e sociedade,
lembranças de velhos, da socióloga brasileira Ecléa Bosi; e A
pessoa idosa não existe, do psicanalista francês Jack Messy,
citadas na bibliografia. As obras selecionadas dão uma amostragem do
amplo interesse que o tema suscita, pois são livros escritos por
autores contemporâneos, diferentes em sua formação profissional e
sua nacionalidade. Duas abordagens poderiam ser classificadas como
externas, as da socióloga e do
psicanalista, pois têm o velho como objeto de análise; a outra, do
jurista e pensador italiano, é uma abordagem interna, uma vez
que ele a escreveu na quadra dos oitenta anos, fazendo considerações
sobre seu próprio envelhecimento. Todos os três livros (assim como
os demais, sugeridos na lista abaixo) são leituras interessantes,
seja como pesquisa, seja como experiência de vida para todo leitor
que se aproxima do limiar da velhice.
O tempo da memória: De
senectute e outros escritos autobiográficos, de Norberto
Bobbio
Norberto Bobbio, jurista e filósofo
italiano, nascido em 1909, declara ser
filho do século XX,
um século
breve, como foi chamado, mas marcado por acontecimentos
terríveis: duas guerras mundiais, a revolução russa, comunismo,
fascismo, nazismo, o surgimento pela primeira vez na história dos
regimes totalitários, Auschwitz e Hiroxima, décadas de predomínio do
terror, e então, depois da queda do império soviético e o fim da
guerra fria, uma ininterrupta explosão, em diversos lugares do
mundo, de guerras nacionais, étnicas, tribais, territorialmente
limitadas mas não menos atrozes.(p. 51)
E
Bobbio entra na velhice propriamente dita,
na “quarta idade” dos que adentram os 80 anos, ao mesmo tempo em que
sai do seu século, constatando: “cheguei ao fim não apenas
horrorizado, mas incapaz de dar uma resposta sensata a todas as
perguntas que os acontecimentos de que fui testemunha continuamente
me propõem” (p. 52). O tempo da memória
são, pois, considerações sobre o passado e o presente,
filtradas pela ótica de quem muito viveu e que percebe, na falência
do corpo e nos lapsos da mente o preço cobrado pelo tempo vivido.
São reflexões sobre o significado da velhice no mundo de hoje.
O
volume da Editora Campus tem prefácio de
Celso Lafer e apêndice de Pietro Polito, e se divide em duas seções
distintas: “De senectute”, título tomado de empréstimo a
Cícero, e “Escritos autobiográficos”. É na primeira seção, como o
título já deixa claro, que o pensador faz suas reflexões sobre o
envelhecimento, aludindo a obras do passado sobre o tema e lembrando
que, naqueles tempos recuados, seus autores estavam em geral na
faixa dos sessenta anos. Isso já revela o quanto o homem moderno vem
empurrando para diante a barreira que separa a idade madura da
velhice.
Aos 85 anos, em 5 de maio de 1994, ao ser-lhe conferido o diploma
honoris causa
em Ciências Políticas, Norberto Bobbio proferiu seu discurso “De
senectute” na Università degli Studi di Sassari. O texto desse
discurso constitui a Primeira Parte, dividida em quatro subtítulos (
1. A velhice ofendida; 2. Mas que sabedoria?;
3. Retórica e anti-retórica; e 4. O mundo da memória) e seguida da
Segunda Parte (1. Ainda estou aqui; 2. Depois da morte; 3. Lentidão;
e 4. O tempo perdido), textos escritos especialmente para esta
edição e que complementam suas reflexões sobre a velhice.
Os “Escritos Autobiográficos”, em número de dez, constituem a
segunda seção do volume e se referem a diversos
acontecimentos e épocas da vida do eminente jurista e senador
vitalício da Itália.
O
autor, depois de comparar o status social do velho nas
sociedades antigas e no mundo contemporâneo e de buscar explicações
para a mudança, constata que a segurança, o conforto e o refúgio do
idoso são as suas lembranças do passado e conclui dizendo sobre si
mesmo:
Tenho uma velhice melancólica, a melancolia subentendida como a
consciência do não-realizado e do não mais realizável. A imagem da
vida corresponde a uma estrada cujo fim sempre se desloca para
frente, e quando acreditamos tê-lo atingido, não era aquele que
imagináramos como definitivo. A velhice passa a ser então o momento
em que temos plena consciência de que o caminho não apenas não está
cumprido, mas também não há mais tempo para cumpri-lo, e devemos
renunciar à realização da última etapa. (p. 31)
A
leitura de O tempo da memória, de Norberto Bobbio, dá ao
leitor uma visão sensata e sensível das perdas e ganhos trazidos
pelo envelhecimento, ganhos expressos sobretudo
na humildade em reconhecer seus próprios limites e tentar cotejar
passado e presente com um olhar justo, o que só está ao alcance
daqueles que também, com o tempo, ganharam em sabedoria, como
ocorreu com este pensador italiano.
Memória e sociedade,
lembranças de velhos, de Ecléa Bosi
O livro Memória e
sociedade, lembranças de velhos, de Ecléa Bosi, originou-se,
em 1973, de sua tese de livre-docência
em Psicologia Social. O volume, editado por T. A Queiroz,
apresenta prefácio de João Alexandre Barbosa, intitulado “Uma
psicologia do oprimido”. A própria autora afirma não se tratar de
uma obra sobre a velhice, nem sobre a memória, declarando: “Fiquei
na intersecção das duas realidades”. Segundo Benedito Nunes, o
que
...justifica a longa carreira desse
trabalho [...] é o próprio caráter interseccionante da investigação
aí empreendida, cruzando a teoria e a prática, a linguagem oral e a
linguagem escrita num texto desenvolto, analítico e meditativo, que
recorta tanto o domínio das ciências sociais quanto o da tradição
humanística.
Depois de uma introdução de bases
teóricas, a pesquisadora transcreve depoimentos de oito pessoas –
homens e mulheres – maiores de 70 anos, que têm na cidade de São
Paulo o seu denominador comum. Todos viveram nessa cidade a maior
parte de suas vidas. Viram-na crescer,
mudar de aspecto e de população, presenciaram o fluxo migratório em
suas várias levas de etnias diversas, viram-na transformar-se
em metrópole. Dando voz a esse pequeno grupo de velhos, cuja
única riqueza é a sua memória pessoal, Ecléa Bosi recupera um tempo,
reconstrói um momento social coletivo, cosendo retalhos de
lembranças individuais. Faz pela pesquisa o que Alcântara Machado
fizera na literatura com o seu tempo, fixando o modo de viver dos
paulistanos não-oficiais, aqueles que não têm senha de acesso à
História, mas que a fazem de fato. Aliás, a leitura de Memória e
sociedade revela-se muito útil ao leitor de Alcântara Machado,
nem sempre apto a entender certas alusões que o ficcionista faz em
seus contos.
Benedito Nunes, em comentário ao livro
de Ecléa Bosi, destaca a sua importância, ao constatar a situação a
que hoje estão relegados os velhos:
A sociedade industrial em que vivemos
rompeu esse liame [de elo entre gerações], desvalorizou o saber de
experiência, corroeu a memória coletiva, desvalorizou a lembrança;
portanto, desapossou a velhice de seu dom à sociedade e à cultura.
Da natural condição de sobrevivente de uma geração que ele é, [...]
o homem idoso, porque improdutivo [...] passa, acobertado pela
etiqueta clínica da “terceira idade”, ao anonimato dos excluídos sem
voz.
É isso que o livro de Ecléa Bosi faz, dá
voz aos marginalizados pela idade, convida-os a exporem suas
lembranças mais antigas e, com elas, recupera um tempo e um modo de
viver que, de outra forma, estariam perdidos para sempre.
A pessoa idosa não existe,
Uma abordagem psicanalítica da velhice, de Jack
Messy
Jack Messy é um psicanalista atuante que
trabalha no ramo da psicanálise em Paris há mais de dez anos, sendo
atualmente diretor do Centro de Formação da Sociedade AGES. Este
livro, que trabalha com a questão da velhice e do envelhecimento,
com enfoques teóricos e relatos de casos, destina-se principalmente
aos profissionais que lidam com pessoas de idade: assistentes
sociais, enfermeiros, médicos, psicólogos e psicanalistas, mas
também é leitura de interesse para cada um de nós, que nos
aproximamos, passo a passo, da velhice ou que convivemos com velhos
em nosso meio profissional ou familiar.
O livro reparte-se em quatro capítulos,
antecedidos de um prefácio do autor e seguidos de uma breve
conclusão. No prefácio, o autor expõe seu propósito, contestando
noções sedimentadas em nossa cultura:
Este livro tenta tomar posse de novo de
nossa inscrição no tempo e de nossa vida em sua história. A velhice
não é uma passagem obrigatória para a morte, assim como a demência
não é uma ameaça em contrapartida de uma idade avançada, como parece
ser a promessa aos decênios que ultrapassam nossas expectativas. (p.
10)
Com relação ao título do livro – A
pessoa idosa não existe – explica tratar-se mais do que uma
simples provocação, tendo em vista que a idade é irrelevante em si
para uma abordagem psicanalítica, pois que ela não interfere na
psique. “Os processos do sistema inconsciente estão fora do tempo,
a relação temporal é do âmbito do sistema
consciente”, esclarece. No tratamento psicanalítico, estão em jogo
os desejos e conclui: “Na circulação da libido não há jovem nem
velho, o desejo não tem idade” (p. 10).
O primeiro capítulo, “O espelho
quebrado”, repartido em treze seções, discute vários aspectos
ligados ao processo de envelhecimento: as perdas (da própria
identidade física, da beleza, da independência, da memória, etc) e
também os ganhos. Sobre estes o autor se detém na seção “O
envelhecimento é aquisição”.
Todo esse primeiro capítulo, que inicia
evocando a estranheza que a pessoa tem diante de sua imagem
envelhecida no espelho (“não sou eu esse velho, é outro”) e tão
reiterada na literatura, constitui uma longa
reflexão, com bases teóricas, sobre o velho e o sobre o
envelhecimento, focalizados sob diferentes ângulos.
Inobstante o referencial teórico, o autor consegue expressar-se numa
linguagem acessível, capaz de atender às expectativas de qualquer
tipo de leitor, não apenas às do especialista. O segundo capítulo,
“Neurose, psicose, velhice”, segue o mesmo padrão, discutindo esses
tópicos com bases teóricas.
O longo capítulo “Me
chamam Lili” é um estudo de caso, que versa sobre uma
paciente idosa, descrevendo as sessões de seu tratamento. Por
último, no capítulo “Desmentir a demência”, o autor faz uma
abordagem psicanalítica do mal de Alzheimer, doença devastadora que
dia a dia vem-se tornando mais comum, contestando algumas das noções
que a mídia tem propagado em torno dessa forma de senilidade.
Na conclusão, Jack Messy resume a
trajetória de sua argumentação ao longo do livro e finaliza,
sintetizando assim sua posição:
Através de todas essas páginas eu quis
mostrar como o envelhecimento, cujo término é a morte, diz respeito
a todos nós. O indivíduo, seja qual for sua idade, permanece um
sujeito com desejos, e cujo apelo é preciso sustentar, até o momento
em que a mensagem vire sofrimento. (p. 140)
Referências Bibliográficas
BARROS, Myriam Moraes Lins de
(org.). Velhice ou terceira idade? Estudos antropológicos sobre
identidade, memória e política. Rio de Janeiro: Editora Fundação
Getúlio Vargas, 1999.
BEAUVOIR, Simone de. A velhice.
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.
BOBBIO, Norberto. O tempo da
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Rio de Janeiro: Campus, 1997.
BOSI, Ecléa. Memória e
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DEBERT, Guita Grin (org.).
Antropologia e velhice. Textos didáticos, IFCH/UNICAMP, n.13,
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---------- & GOLDSTEIN, Donna
(org.). Políticas do corpo e o curso da vida. São Paulo:
Sumaré, 2000.
DOLL, Johannes. Satisfação de vida
de homens e mulheres idosos no Brasil e na Alemanha. Cadernos
Pagu, Campinas