|
Esther Bick: observação de bebê na
formação psicanalítica (1901 - 1983)
A
psicanalista inglesa Esther Bick, discípula de Melanie Klein foi
quem desenvolveu o método “naturalista” de observação de bebês em
1948, como parte do curso de aprendizagem, em Londres, para
psicoterapêutas de crianças. Mais tarde, a observação de bebês foi
incorporada ao plano de estudos do Instituto de Psicanálise de
Londres, em 1960.
O método
de observação de bebês tem como objetivo dar ao observador
(candidato a psicanalista), a oportunidade de acompanhar o
desenvolvimento de um determinado bebê durante os primeiros anos de
vida, através de sua relação com as figuras parentais, especialmente
a mãe; desenvolver a capacidade de valorizar os pequenos detalhes da
relação; de se colocar na posição de “não saber” de antemão,
esperando pelo esclarecimento de algo que não se conhece; de
observar com interesse e paciência, pelo o fato de que tudo tem
algum significado para a pessoa.
Na
observação de bebês, o observador efetua uma visita semanal à
família até, aproximadamente, o final do segundo ano de vida do
bebê, podendo continuar, com o objetivo de completar a experiência,
até o terceiro ano. Geralmente a visita tem a duração de uma hora.
A
primeira entrevista com os pais, que pode acontecer antes do
nascimento ou imediatamente após, tem como objetivo que a família e
o observador possam se conhecer e decidam se a observação será ou
não realizada. De início, é explicado aos pais que o observador
deseja adquirir alguma experiência direta com crianças pequenas,
como parte de sua formação profissional.
Esta
observação deve ser o mais fiel e global possível, captando além dos
acontecimentos, os comportamentos, os gestos e as atitudes do bebê,
da mãe, do pai ou de qualquer outro membro da família, assim como o
que é dito, tratando-se ou não de questões importantes, singulares,
repetitivas ou banais. O observador deverá ser simpático e receptivo
com todos os membros da família, ao mesmo tempo em que reconhece o
privilégio de lhe ser permitido participar da privacidade da
família; isto é, tem que se colocar neutro, não mostrar grande
entusiasmo e não chamar a atenção sobre si.
Durante
as visitas não serão tomadas notas, e sim imediatamente depois de
terminada a observação, com o objetivo de captar todos os detalhes
possíveis. É necessário que o observador sinta-se incluído no seio
familiar, como para experimentar o impacto emocional; entretanto,
deverá abster-se de dar conselhos ou orientações não solicitados.
As
observações deverão ser apresentadas num grupo de discussão
analítica, para interpretação do material recolhido. Esses grupos
funcionam como uma supervisão de sessões analíticas, onde o
observador e candidato a psicanalista aprende a reconhecer os
efeitos de sua presença na relação mãe / bebê; a relação
transferencial estabelecida entre a mãe do bebê e ele; seus próprios
afetos transferenciais, sejam em termos de identificar-se com o bebê
ou com as angústias maternas.
A
relação com a situação analítica se dá por via da comunicação
não-verbal; logo, há em todos pacientes, sejam crianças,
adolescentes ou adultos, um aspecto “bebê” que precisa ser entendido
e que utiliza preferencialmente a comunicação não-verbal. Traça-se
um paralelo com a situação analítica em que o psicanalista
encontra-se num espaço onde deve manter uma atitude de receptividade
afetiva sem, no entanto, passar ao ato; deve-se observar não somente
as palavras ditas pelo analisando, como também seu comportamento;
deve-se, pacientemente suportar o silêncio e a própria confusão de
não saber o que se passa com o analisando, evitando-se responder à
demanda do paciente, fechando-se, desta forma, o circuito do desejo.
|