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(...Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial,  mas uma medida terapêutica. 

 Sua essência não é provar nada,  mas simplesmente alterar alguma coisa(...)” 

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A temporalidade dos 4 discursos(*)

 Pedro Ponzoni Filho(**)

Carla Queiroz(***)

 A criança chega em análise banhada pelo Outro, inserida no discurso da família e denunciando em seu próprio discurso o sintoma familiar.É no campo do Outro, da cadeia significante, que advém o sujeito,mas para isto acontecer é necessário uma hiância, intervalo entre S1 e S2.  A alienação acaba por condenar o sujeito a só aparecer na divisão. É a marca que advém daquele campo que introduz o sujeito na linguagem.

 É o desejo do Outro veiculado através da falta, de um intervalo, e não como efeito de cola, que dá possibilidades ao sujeito de se constituir dividido, desejante, colocando em funcionamento a cadeia significante - um pequeno sujeito desejante marcado pelo discurso do Outro.Tentaremos, agora, situar os três primeiros meses da análise de um paciente de treze anos na temporalidade dos quatro discursos definidos por Lacan no Seminário 171.

 A tia do paciente procurou tratamento para ele, com as queixas de grande atraso escolar, destrutividade de objetos, mentira e choro freqüente, as vezes motivado pela falta do pai, o qual constituiu outra família há 2 anos. Ao ser procurada, a mãe, apesar de ser taxada de irresponsável pela tia, assume o pagamento da análise do seu filho e o traz para a primeira sessão. Ele começa se queixando pelo fato de ser tratado como criança e de não ter ninguém para conversar na sua casa, porque todos estão sempre trabalhando. Não gosta de ler, nem escrever, nem desenhar. Mesmo assim concorda em verificar se o seu nome, escrito pelo analista no pequeno quadro negro da sala, está correto.

Uma letra foi trocada. Corrige-a, apagando o "Y" e fazendo no seu lugar um traço vertical, referente à letra "I". Até o término da sessão, enquanto responde questões sobre  seu cotidiano, usa o giz para fazer rabiscos aleatórios.Na sessão seguinte, após ter dito que gostaria de morar com o pai, ao ser questionado sobre as perdas associadas a essa escolha, fica em dúvida. Pouco depois  passa a arremessar contra as paredes a bola que tinha nas mãos, com violência crescente. Em outra sessão, abre vários potes e derrama o conteúdo dos mesmos sobre uma folha de papel. A tinta se espalha pela mesa toda e escorre pelo chão. Sobre a massaroca colorida joga ainda alguns pingos brancos que formam a figura de um rosto. Em seguida começa a bater sobre esta figura com as duas mãos, espalhando tinta para todos os lados. Retira a folha totalmente encharcada e pergunta ao analista se este vai guardar o seu desenho.

 

Terminada a sessão, o paciente vai se lavar; e deixa nas paredes do banheiro a marca de suas mãos.Para haver um discurso é preciso que se estabeleça uma relação entre os elementos S1, S2 , $ e a. Antes de S1, e portanto antes de qualquer discurso, há o traço unário; que é possivelmente um signo2. Para se tornar S1 é necessário que ele seja ulteriormente relacionado com uma bateria significante. O traço unário define "o caráter pontual da referência original ao Outro na relação narcísica"3. As impressões digitais deixadas no banheiro da instituição e os traços aleatórios sobre o quadro negro atendem à necessidade lógica de deixar a sua marca no campo do Outro.

Seriam o primeiro ato da resignificação do processo de constituição desse sujeito ? Os atos das sessões seguintes reforçam essa hipótese.Para Lacan, "o gozo é correlativo à forma primeira da entrada em ação do ... traço unário, que é marca para a morte"4. Essa correlação parece estar presente na tinta derramada, na formação do rosto imediatamente destruído e no oferecimento ao analista da folha encharcada com o produto do seu gozo. Questionado sobre o sentido das marcas deixadas, o paciente se diz grafiteiro e desenha sua marca, formada por duas letras, que segundo ele não querem dizer nada e são usadas também por outros grafiteiros.

Desenha essas duas letras numa folha e a amassa várias vezes sucessivamente, numa seqüência de presença e ausência que faz lembrar o jogo do fort / da praticado pelo neto de Freud, siginificativo da constituição do sujeito. O analista escreve sua própria rubrica e diz que essa é a sua marca. Convida o paciente a inventar uma rubrica para si mesmo, desenhando as iniciais do seu nome completo. Numa sessão posterior, o analisando faz um desenho colorido com a marca que o identifica como grafiteiro e sobre esse desenho escreve seu nome próprio, com grande destaque. Entrega-o para ser guardado e em seguida desenha no quadro negro a rubrica do analista. Com esse ritual, mostra que ali  há um sujeito e que a transferência foi estabelecida.

Portanto, um novo tempo lógico pode ter início. O nome próprio sobre o traço de grafiteiro, inaugura a passagem do signo para o significante, articulado por representar o sujeito junto a outro significante. O que se destaca é "família". Significante primordial que ao mesmo tempo que o aliena e submete, permite sua entrada num discurso. Uma família muito grande, formada por avós, tios e outros parentes que, morando todos juntos, determinam o que ele pode e não pode fazer. O significante destacado, S1 , intervém numa bateria, S2 , que integra o saber desse meio familiar. Esse saber é chamado por Lacan de gozo do Outro5. A Família goza através dos significantes "burro", "sonso" e outros. Articulado entre S1 e S2 surge o sujeito dividido, $. O resto dessa divisão é designado por Lacan como objeto a.Os 4 elementos agora estão presentes. No discurso assim inaugurado, o sujeito está debaixo de S1, submetido ao Mestre encarnado na "grande família", nome do seu programa de TV predileto.

Diante do sofrimento descrito pelo paciente em face das ordens e admonições que partem de todos os adultos a sua volta, o analista escreve no quadro a palavra NÃO; uma palavra para ser usada. Além disso, faz alguns questionamentos relativos à organização familiar, como o tratamento de "mãe" dado pelo paciente à avó, a desvalorização da imagem do pai e o lugar da mãe. À medida que as funções paterna, materna e da castração vão sendo engendradas, a "família" vai ficando menos pesada e sufocante.

O saber através do qual o Outro goza vai sendo esvaziado de significação. Esse esvaziamento é condição necessária para o giro6. Para que haja uma sublevação contra o mestre, elevando $ ao lugar de agente, com a entrada no discurso histérico. A falta começa a funcionar como causa, por efeito do discurso do analista e o saber que começa a ser produzido é formado de outros significantes: futebol, ... LACAN,J. O Seminário, livro 17, O Avesso da Psicanálise. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1992

LACAN,J. O Seminário, livro 8, A Transferência. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997, p.344

 

LACAN,J. O Seminário, livro 17, O Avesso da Psicanálise ... op.cit.,p.169

 

Becker, S. A escrita do furo, Jornada da Escola - Letra Freudiana -  Rio de Janeiro, 20/11/2002

 

 (*) Trabalho apresentado no "Encontro Anual do Núcleo de Investigação Hans" na Escola Letra Freudiana em 28/11/2003 no Rio de Janeiro - RJ.

(**) Psicanalista, membro da Escola Letra Freudiana

(***) Psicanalista, participante da Escola Letra Freudiana.

 

 
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