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O
que é o desejo ?
Leila Aparecida Martins
O que é o desejo ?
O que é o desejo? Questão que
se responde ou remete a mais questões: O que é o desejo de cada
sujeito? O que é o desejo da mulher? O que é o
desejo do filho? O que é o desejo do pai? O que é o
desejo da mãe? O que é o desejo do analista? O que é
o desejo de ser analisado? Para essa última questão, surge
muitas vezes na clínica, pelos analisantes, a procura de algo,
de uma “coisa”, que preencha um vazio... Essa busca por
algo, que não se sabe o que é, pode ser a resposta para o
que é o desejo.
Portanto, vamos partir do
início: O que uma criança deseja de sua mãe, ou do Grande Outro,
ao nascer ?
Pela necessidade humana, há a
questão da fome, sede, frio,etc., o que é respondido à medida
que a mãe dá a criança. Mas por ser atravessada pela
linguagem, não lhe dá só o leite, às vezes não lhe dá nem
o leite, mas pode dar a sua presença em forma de carinho,
contato, palavras, olhar. E se dá a presença também pode dar a
ausência, o que cria, ou transforma a necessidade em demanda (de
amor). O que é da necessidade que não se articula em demanda
(pedido/apelo) é reprimido e ressurge como objeto de desejo, que
causa o desejo, objeto que está sempre perdido, pois nunca
haverá objeto que satisfaça totalmente a necessidade.
Pelo humano ser
atravessado pela linguagem, existimos antes mesmo de nascermos,
existimos no desejo e no discurso do Outro (outro
materno e outro da linguagem).
O exercício da função
materna pressupõe a prática de um desejo. Mas qual desejo?
O desejo do falo. Seguindo o desenvolvimento psíquico feminino
vemos a maternidade como resposta à castração. A menina,
reconhecendo que lhe falta algo, passa a querer algo que lhe
complete, ter um filho, fazendo a equivalência filho-falo.
O filho, inicialmente, identifica-se como objeto de desejo da
mãe, fica sujeito ao desejo do Outro materno, fica numa situação
de dependência absoluta, onde a mãe situa-se como onipotente
frente à criança.
Nessa onipotência, a mãe pode ou
não dar, e o objeto real da satisfação pode tornar-se simbólico
(Dom). A falta neste momento, aparece como privação,
transformando a necessidade em demanda. Na privação, a falta
pode ser coberta por um objeto simbólico.
Quando existe a demanda, ela é
dirigida à ausência ou presença da mãe (a demanda é de
amor e não objeto da necessidade). A falta aqui, aparece
como frustração, agenciada pela mãe. A frustração é um dano
imaginário ao objeto real (seio/pênis)
A onipotência materna ( a
tríade mãe-criança-falo) só é quebrada com a função Nome-do-Pai
(função paterna), para que a criança saia do lugar de falo, para
ser filho, para ter uma filiação e se perguntar: “o que ela quer
de mim?”
“Perceber que me falta algo,
pois não a satisfaço, algo que falta a ela, por ela desejar além
de mim”. É necessário que a mãe deseje (função paterna)
para quebrar a onipotência e remeter à visão da diferença
sexual, aceitá-la castrada para aceitar-se como ser faltante
também (ferida narcísica). A falta aqui, é em relação ao
desejo da mãe e a um objeto imaginário: o falo. Perceber
que existe um mais além de si mesmo para o desejo do Outro
(mãe), permite tornar-se sujeito desejante e não só um objeto de
desejo do Grande Outro, podendo encontrar outro lugar que não
mais aquele que ocupava.
O que fazemos com a
castração , com essa ferida narcísica, ou como ainda nos
identificamos como objeto da mãe é o que determina a estrutura
em que ficamos e como nos relacionamos com o desejo e com o
gozo. O desejo surge da percepção que o desejo da mãe é o pai, e
vice-versa, funcionando como uma lei, uma interdição ao gozo
absoluto (completude com a mãe). Nascemos do desejo do Outro e
também nos tornamos sujeitos pelo desejo do pai, pois sem essa
interdição que nos remete a ordem simbólica, não desejamos.
O desejo é sempre
tentativa de satisfação do objeto que está perdido, que nunca
houve – pelo atravessamento da linguagem na necessidade - , por
isso é possível se deslocar. O desejo e o gozo (tentativa de
completude) sempre estão juntos, quando um aumenta, o
outro diminui. O desejo é possível com o gozo fálico (o gozo das
palavras, a realização de um desejo e não sua
satisfação).
As estruturas neuróticas são uma
defesa ao complexo de castração.
A fobia não é considerada estrutura,
mas é porta de entrada para uma estrutura, pois o objeto fóbico
sustenta a metáfora paterna, quando a função Nome-do-Pai é
falha, quando não operou totalmente, não foi afirmativa, mas só
sugestiva, como a instabilidade paterna (pai real ou a mãe
que desautoriza este pai) que não afirma, só sugere, o indivíduo
não sente-se assegurado da presença paterna, e com isso, o
medo de ser “engolido” pelo desejo materno (fantasia de
devoramento). O Objeto fóbico entra como um significante paterno
para “fechar a boca dessa mãe”. A claustrofobia aparece
como o medo de ficar preso ao desejo materno, enquanto que a
agorafobia, o sujeito não tem onde assegurar-se, medo de ser
sugado pelo vazio (também aparece na vertigem), por não ter o
referencial paterno estável.
A frustração de amor agenciada
pela mãe, concomitante com a função paterna não funcionando como
lei, como interditora, com um pai que não castra, mas seduz,
torna o sujeito um eterno reivindicante desse amor incompleto,
colocando-se como um objeto desvalorizado e incompleto também
(incapaz de satisfazer a mãe). Tornando-se objeto de desejo, não
mais da mãe, mas também do pai, constrói assim, a fantasia de
sedução do histérico (a).
O desejo do histérico (a)
é sempre manter o seu desejo insatisfeito, à medida que se
identifica com um objeto frágil e insatisfatório em relação ao
desejo da mãe. Para manter seu desejo insatisfeito, não coloca
outros objetos como substitutos possíveis, mantendo assim, o
desejo como resposta a um ideal de ser
(aquele que acha que poderia ter sido para o Outro). Na
histeria, deseja ser o falo e não tê-lo, portanto, recusando-se
a aceitar o encontro com a falta. Recalca a função paterna
(pai caído), até porque não a teve como lei, perguntando-se
“O que é uma mulher?”, só podendo ser desejada, não sabe o que é
uma mulher, o que esta deseja. Permanece no gozo através
do corpo (sintomas conversivos), dos estereótipos de beleza,
etc.
O histérico(a) repete
cenas de sedução com o desejo de ser objeto de desejo do Outro –
desejo por procuração – Sendo objeto, não deseja, subtrai. Quer
permanecer fálico para tampar a falta no Outro.
O Obsessivo sente-se
amado demais pela mãe, foi investido como objeto privilegiado do
desejo materno. Por isso, permanece na nostalgia de ser o
falo, constitui-se como objeto o qual a mãe supostamente
encontrará o que não consegue encontrar junto ao pai.
A criança é confrontada
com a lei do pai, mas mantém-se também subjugada pela mensagem
de insatisfação materna. O obsessivo tem um impasse: se
regride totalmente à identificação fálica (ao ser), se mata o
pai, podendo ficar preso à demanda materna. Assim, está
sempre postergando seu desejo, colocando-o como distante e
impossível, para nada saber dele.
O excesso de amor materno vem
acompanhado de sedução erótica. A criança é chamada para suprir
a falha no gozo materno, induzindo a uma passividade fálica.
Essa experiência de prazer com a mãe, o impedirá de
mediatizar o seu desejo. A articulação da necessidade com a
demanda fica prejudicada no obsessivo, por a mãe não lhe dar
tempo de haver a suspensão do desejo entre as duas instâncias,
por isso, seu desejo é sempre da ordem da necessidade. A
sua passividade é resultado dele achar que está impossibilitado
de demandar. Fica numa posição de sacrifício e servidão, como
objeto de gozo do Outro.A impotência do pai aparece nele,
sente-se inútil. Abdica de seu desejo para continuar como falo,
sendo o falo, não pode tê-lo ao mesmo tempo. Aniquila o
desejo no Outro para não saber do seu., apaga a diferença
sexual, idealiza a mulher, colocando-a como objeto do desejo
impossível.
Na perversão, não há o
recalque da função paterna, há a recusa da castração.
O perverso vê, mas nega a diferença sexual, nega a mãe castrada,
colocando um objeto fetiche para tampar sua falta, como
substituto ao falo materno, mantendo a imago de uma mãe fálica.
Não é instrumento de gozo do Outro, mas dele mesmo. Fica na
posição de objeto imaginário do gozo. O perverso não
deseja, goza, pois a lei não é suficientemente válida,
ele a transgride.
E o desejo do analista?
Qual é? Não pode ser um desejo de caráter histérico, obsessivo
ou perverso, por isso, para ser analista, só sendo analisado.
Para que o seu desejo neurótico possa através de sua
análise , ocupar um outro lugar, pois o analista deve
operar com o seu desejo e não com o seu gozo.
O desejo do analista é função,
é possibilitar que a palavra se desenvolva, constituindo um
sujeito. Quando a palavra se desenvolve, o efeito é o
resto, e análise é o lugar desse resto, o
analista como função é recolher esse resto, que é o desejo.
A demanda do paciente pode ser
articulada em função do desejo do analista.
O desejo de saber do analista não é
para encontrar certezas, mas para situar a falta onde ela está,
como consequência da linguagem, a falta está no discurso.
O desejo é o motor, é o
que produz, o que faz o sujeito andar, buscar realizações
e é acionado pela castração simbólica e esta pode ser
restituída pela e na análise através do atravessamento de seu
fantasma, criado para responder a questão trazida pela
castração: “O que queres de mim?”
De posse desse saber, o sujeito
analisado pode se posicionar de outra forma em relação ao seu
desejo, que no neurótico é sempre desejo do Outro.
BIBLIOGRAFIA
-
Seminários: O que é o desejo?
Andreneide
Dantas/Maria Helena Seibt/Joaceri Merlin/Neuza Laís Coelho
-
Estruturas e clínica psicanalítica
Joel Dor
Editora Taurus
-
A Ética do Desejo
Susana Amália Palácios
Editora Relume Dumará
Leila Aparecida Martins
Psicóloga/Psicanalista e Membro do Instituto Tempos Modernos
02 De Dezembro d
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