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Masoquismo e a Ética(*)
Pedro Ponzoni Filho
O masoquismo foi introduzido por Freud como um conceito básico
arcabouço teórico da Psicanálise, por uma questão prática uma
conseqüência direta da sua clínica frente à constatação de que a dor e o
desprazer não são apenas sinais de alarme dos processos anímicos, mas
também alvos em si mesmo.Eduardo Vidal afirma que "partindo de um
primeiro tempo, onde o masoquismo se apresenta como traço próprio de um
sujeito, Freud chega à constatação final do seu caráter originário,
irredutível limite que oferece à direção da cura"2.
Ao escrever limite
à direção da cura e não limite à cura, o autor endossa a determinação de
não recuar frente ao gozo, ao mesmo tempo que suscita a criatividade do
psicanalista no sentido do desenvolvimento de um manejo balisado na
presença inexorável da pulsão de morte.
Vários anos antes
de apresentar explicitamente o problema econômico do masoquismo, a obra
freudiana já dava uma indicação a respeito desse manejo, ao enfatizar
que o segundo tempo do fantasma de espancamento só pode ser construído
no decorrer da análise3. O ser espancado tem aí uma dupla função:
aplacar o sentimento de culpa e substituir uma satisfação genital
proibida.
Essa duplicidade
pode ser ilustrada pelo fato de uma paciente, que procurou análise
por ter perdido o prazer de viver, desde o falecimento do pai, relatar
rindo que havia sido um dia espancada pelo mesmo com um cassetete. Ao
ser indagada sobre o riso, creditou-o ao inusitado do instrumento,
acrescentando que além de tê-la machucado, deixou marcas (nas paredes do
aposento). Trata-se de uma encenação do segundo tempo do fantasma no
registro imaginário, onde o gozo transparece no riso aparentemente sem
propósito.
O segundo tempo
não pode ser desvinculado dos demais: o sadismo domina o primeiro,
pré-edípico, e nos dois outros a satisfação provocada é
masoquista; mas a pulsão é única, parcial e não toda. A sua versão
sádica permite-lhe partir em direção ao Outro para efetuar nesse campo o
retorno, constituindo aí "o ponto de giro a partir do qual se orienta
contra a própria pessoa"4.
Não é por acaso
que a frase construída em análise é a única que contém o pronome pessoal
da 1ª pessoa. Entre "o pai espanca a criança" e "uma criança é
espancada" surge "eu sou espancado pelo pai".Cada analisante a
construirá com os significantes que lhe são peculiares. A lei e o gozo
se articulam em cada sujeito de um modo totalmente particular.
Mas como a partir
daí fazer valer a ética da psicanálise?
Para responder a
essa questão é preciso antes de mais nada não perder de vista que o
fantasma é um resto do tempo edípico e, sendo assim, ele funciona como
suporte do desejo.
Ao gozo
representado pela frase fantasmática inconsciente Freud denomina
masoquismo, acrescido de vários adjetivos: primário, erógeno e,
principalmente, originário, fundamento dos masoquismos feminino e moral.
O originário é "testemunho e resto da fase de formação em que aconteceu
o amálgama da pulsão de morte e Eros, tão importante para a vida"5. Fica
assim evidenciado o caráter estrutural do masoquismo, como um resto da
"fundação do inconsciente no ato de fixação do representante à pulsão
... no tempo do recalque originário"6.
Diante dessa
inclinação estrutural ao sofrimento, não é para se estranhar a reação
terapêutica negativa apontada por Freud em "O Eu e o Isso"7, a
propósito da qual ele alerta que o paciente pode piorar e reagir de
maneira transtornada quando se lhe dá esperança e se mostra satisfação
com o progresso do tratamento. O sentimento de culpa inconsciente surge
como um movimento em sentido contrário ao do progresso da análise.
A compulsão de se
fazer objeto do desejo do Outro acompanha todas as fases de
desenvolvimento da libido e se revela na forma de uma compulsão à
repetição. Freud se inspirou na observação de uma brincadeira do seu
neto para criar esse conceito8. O Fort era repetido um número de
vezes muito maior do que o Da, embora esse último representasse a
presença da mãe. A partir desse tempo estruturante, Fort/Da passa
a representar o sujeito no campo do Outro. Para o neto de Freud,
representavam naquela ocasião a relação com sua mãe. Da representa o
sujeito para outro significante, Fort, que se torna retroativamente o
S1, fazendo do próprio Da o S2. Esses significantes, que podem ser
qualquer som, qualquer balbucio, representam a ausência e a presença do
Outro. O sujeito não está nessa cadeia simbólica S1 ® S2. Ele cai no
intervalo, dividido para sempre.
S1 marca o
desaparecimento do Outro e a primeira morte do sujeito, por não estar
ali representado.
A
ausência/presença pode também ser percebida como estranho/familiar.
Assim, um menino de 10 anos, acostumado a freqüentar consultórios
médicos e hospitais públicos em virtude de sua dificuldade para dormir e
porque a mãe o considera agitado e esquecido, relatou o seguinte sonho
na segunda sessão de análise: "eu estava num lugar estranho; quando vi,
não era estranho".
Na tentativa de
"fazer um com o Outro"9, o sujeito repete. E nesse processo, um saber
vai sendo tecido, como uma rede intrincada de significantes em cujos
intervalos ele se aloja.
Desde S1 , essa
rede é ocupada por representantes da falta, "representantes da
incompletude do ser, que sustentam o sujeito como desejante"10. A cada
demanda corresponde uma nova malha, sem que o desejo possa jamais ser
dito. Manifesta-se como um movimento que "procura recatexizar o traço
mnêmico ... da experiência de satisfação original"11.
Portanto, o
desenvolvimento de um manejo balisado na presença inexorável da pulsão
de morte, aponta para a repetição do gozo dentro da transferência. A
consistência das representações que retroagem sobre a falta são
questionadas para que, após ter trilhado o caminho da impossibilidade da
completude, um novo sujeito possa advir.
Bibliografia
1.
FREUD, S. O Problema Econômico do Masoquismo (trad. E.Vidal) - in revista nº
10/11/12 Pulsão e Gozo - Letra Freudiana; p. 119
2.
VIDAL, E.A. Sobre o masoquismo - Introdução - in revista nº 10/11/12 Pulsão e
Gozo - Letra Freudiana; p. 115
3.
FREUD, S. Uma criança é espancada - uma contribuição ao estudo da origem das
perversões sexuais, Ed. Standard Brasileira, Vol. XVII (1919)
4.
VIDAL, E.A. Masoquismo originário: ser de objeto e semblante - in revista nº
10/11/12 Pulsão e Gozo - Letra Freudiana; p. 135
5.
FREUD, S. O Problema Econômico ..., op.cit., p. 125
6.
VIDAL, E.A. Masoquismo originário..., op.cit., p. 134
7.
FREUD, S. El yo y el ello, Obras Completas, Vol. XIX, Amorrortu editores, Buenos
Aires, 1986, p. 50
8.
FREUD, S. Além do princípio do prazer - II - Fort-Da (trad. E.Vidal) - in
revista nº 10/11/12 Pulsão e Gozo - Letra Freudiana; p. 13
9.
ERICSON, N. A segunda morte do sujeito - in revista nº 10/11/12 Pulsão e Gozo -
Letra Freudiana; p. 43
10. Ib., p. 42
11. FREUD, S. A
Interpretação dos Sonhos, Obras completas, Vol V Ed. Standard Brasileira, 1987 -
(1901); p. 516
(*) Jornada da Escola
Intercartéis, Escola Letra Freudiana, 27/06/200
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