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(...Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial,  mas uma medida terapêutica. 

 Sua essência não é provar nada,  mas simplesmente alterar alguma coisa(...)” 

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Transferência: do amor ao luto(*)

 Pedro Ponzoni Filho(**)

  A Transferência começa com o amor e termina com o luto do analista. Do primeiro ao último capítulo do seminário, Lacan recorre à arte e à literatura. Ao colocar no Banquete  o mito do andrógino na boca de um comediante, Platão caracterizou como derrisório o amor imaginado como o encaixe perfeito entre o amante e o objeto amado. Neste mesmo Diálogo Sócrates articula  o amor, a falta e o desejo, ao formular a seguinte questão: "amar e desejar alguma coisa é tê-la ou não tê-la? Pode-se desejar o que já se tem?".

Na sua vez de falar, Fedro narra os mitos de Alceste e Admeto e de Aquiles e Pátroclo. Faz saber que os deuses consideram o sacrifício de Aquiles muito mais admirável porque ele passou da posição de amado para a de amante, enquanto Alceste ao morrer no lugar de seu marido realizou a metáfora do amor imaginário, aquele que pode ser visualizado  no buquê de flores que toma o lugar do que poderia ser um sujeito, junto ao espelho côncavo do esquema ótico completo3. Por Fedro, ficamos sabendo que os deuses não gostam desse amor mortífero. Os habitantes do Olimpo preferem que o objeto amado se torne amante. E Sócrates sinaliza que essa passagem se dá pela presentificação da falta.

  A partir da entrada de Alcebíades a relação do amor com a transferência vai se esclarecer ainda mais. Ele vê em Sócrates o agalma; e recebe a seguinte interpretação: "Aqui onde você vê alguma coisa, eu não sou nada"4. O agalma funciona aí como causa do desejo, cujo objeto é nomeado por Sócrates: seu nome é Agatão. Este diálogo mostra que é em condições estritamente limitadas que o inconsciente pode ser alcançado, "por um desvio, o desvio do Outro, que torna necessária a análise, e reduz de maneira infrangível as possibilidades da auto-análise"5.

  Sócrates sabia que não poderia responder à demanda do seu interlocutor, porque "a demanda não é explícita ... ela é oculta para o sujeito; é como algo que deve ser interpretado. Aí é que reside a ambigüidade"6. Ambigüidade que vem de um tempo remoto. Tempo "do primeiro conflito que explode na relação de alimentação, no encontro da demanda de ser alimentado com a ... de se deixar alimentar"7. Manifesta-se aí "que ... a demanda ... não poderia ser satisfeita sem que esse desejo se saciasse ali  ¾  que é para que esse desejo que transborda a demanda não se sacie que o sujeito que tem fome ... não se deixa alimentar, e recusa de alguma forma desaparecer como desejo" 8. A ambigüidade está no fato de que o sujeito não quer que sua demanda seja satisfeita. Lacan conclui com uma recomendação: "daí a extrema prudência que devemos ter com relação a nossas interpretações no nível do registro oral ... é possível produzir todas as espécies de equívocos ao responder a essa demanda"9.

  Por outro lado, na demanda da fase anal é de uma disciplina da necessidade que se trata; necessidade que é legitimada "como dom à mãe, a qual espera que a criança satisfaça suas funções, e faça emergir ... alguma coisa digna da aprovação geral"10. Aí está a origem da fantasia obsessiva da oblatividade. "Tudo para o outro ... pois estando na perpétua vertigem da destruição do outro, ele nunca faz o bastante para que o outro se mantenha na existência ... como conseqüência, a margem do lugar que resta para o sujeito, isto é, o desejo, vem nessa situação ser simbolizada por aquilo que é suprimido na operação"11: os excrementos.

 

Para falar da demanda na fase genital, Lacan, na sua viagem ao lugar do desejo, aborda outra vez a Arte. Apresenta o quadro maneirista Psiche sorprende Amore, no qual Psiquê está armada com uma cimitarra, numa aparente ameaça ao falo de Eros, que estaria dissimulado por trás de um buquê de flores. A imagem de Eros é heterogênea; um rosto de criança e um corpo musculoso. Retrato da realidade do desejo sexual à qual a organização psíquica não está adaptada. Inadaptação reforçada pela apreciação do falo como objeto concomitante à sua depreciação como desejo, tão comum na relação mãe-filho.

  A arte dramática aparece no seminário através da trilogia de Claudel. Lacan se serve dela para situar  a composição do desejo em três tempos lógicos. Podemos também pensar nas 3 identificações freudianas: a primária, representada por Turelure, o pai que gozava de todas as mulheres e que, no entanto, morre de susto diante do filho Louis, o qual se sente como seu assassino e passa a ser como ele, portanto castrado desde a origem; a secundária ocorre no tempo do Complexo de Édipo, realizado por Louis ao se casar com a amante do pai; para Freud, a autoridade paterna é introjetada no eu formando ali o núcleo do super-eu; a terceira identificação é encarnada por Pensée, livre pensadora, cobiçada e desejante.

  Pensée realizou a metáfora do amor. Numa análise, a realização dessa metáfora é causada. O sujeito vai então se dar conta de que há outro laço possível ao Outro, além de ser objeto do Seu gozo. No entanto, essa  posição de causa do desejo é contingente, o que exige um luto por parte do analista.

  Para o analisante, o luto consiste em  "identificar a perda real, pedaço por pedaço, signo por signo [...]; a duração e a dificuldade de fazê-lo estão ligadas à função metafórica dos traços conferidos ao objeto do amor na medida em que são privilégios narcísicos" 12. A   não conformidade com a contingência se faz pela perseverança e teimosia do amor ¾  "o amor produz durante um certo tempo a ilusão que a relação sexual poderá ainda se inscrever ... pretende deslocar o lugar da negação, fazer passar do contingente ¾ cessa de não se escrever ¾ ao necessário ¾  não cessa de se escrever, necessariamente. Nessa forçação de passagem contorna mais uma vez o impossível ¾ não cessa de não se escrever, a relação sexual."13 .

  Isso, que é tão complicado para o neurótico na travessia de uma análise é claro e cristalino para o poeta, que diz simplesmente

 

 

... E assim quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure14.

 

          Bibliografia

 

1.      LACAN, J. O Seminário, livro 8, A Transferência. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997

2.      PLATÃO, O Banquete. Ediouro - Editora Tecnoprint

 

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Links importantes:

Livros sobre o assunto:

  • Princípios e Práticas Em Tdah - Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade - Luis Augusto P. Rohde
  • Transtorno de Deficit de Atencao Hiperatividade - Rohde, Luis Augusto P
  • Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade - TDAH - Russell A. Barkley
  • Hiperatividade - Como Ajudar Seu Filho - Jones, Maggie
  • Hiperatividade - Como Lidar ? - Topczewski, Abram

 

 

 

   
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